“Dia após dia preciso fazer
escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso
conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam.
E começo a perceber que à medida que o tempo ganhar ímpeto minhas escolhas vão se
dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo
exponencial até eu chegar a algum ponto de algum ramo qualquer dentre as
suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e
cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase,
atrofia e decadência até eu cair pela terceira vez, toda a luta em vão, afogado
pelo tempo. É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias
escolhas, parece inevitável – se desejo ser adulto de algum jeito, preciso
fazer escolhas e lamentar as eliminações e tentar viver com isso.” David Foster
Wallace, em Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer.pp.20,
21.
Ser adulto não é escolher. Ser
adulto é ser o resultado consciente das escolhas que somos obrigados a tomar
desde sempre. Enquanto somos crianças e não nos damos conta
das consequências das escolhas, não ficamos presos às não-escolhas, imaginando
o que poderia ter sido e que, por opção exclusivamente nossa, não foi.
A primeira vez que li esse trecho
de David Foster Wallace, eu confesso que me assustei. Me assustei com a enorme verdade
e com o fato de ele ter conseguido traduzir um sentimento que há muito tempo
fica só no plano das minhas ideias e eu não consigo organizar de uma forma que
possa ser ‘entendível’ aos outros.
Nunca tinha enxergado tão claramente o
ângulo das eliminações. Mesmo que eu já pensasse todos os dias sobre as eliminações que faço, como ter
eliminado ser arquiteta. A prisão, na viciada visão, sempre foram as escolhas. Mas, as renúncias a
que Chorão se refere em “Lutar pelo que é meu”, talvez nos aprisionem ainda
mais.
É o pensar no que poderia ter
sido e que não foi.
Estou longe de ser capaz de
solucionar essa condição. Sou prisioneira do que sou e não tenho escolha quanto
a isso. Mas reflito sobre a ironia dessa
condição, porque acho que nunca somos adultos o suficiente para nos
acostumarmos a ela.
| "Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse. Mandou chamar o médico: - Diga trinta e três. - Trinta e três... trinta e três... trinta e três... - Respire. - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino." Pneumotórax, Manuel Bandeira. |