terça-feira, 1 de julho de 2014

Listando



Eu já falei que amo listas? Amo. Sou quase como Rob Fleming, personagem que Nick Hornby criou para protagonizar Alta Fidelidade. Acho que as listas dele que me fizerem ler o livro,mas regredir até o que me motivou ler esse clássico da década de 90 não é o objeto desse texto e nunca chegarei a uma conclusão. Como ninguém nunca chegou à conclusão nenhuma sobre a Tostines.

Só sei que na madrugada de ontem para hoje, depois de perder o sono, eu acabei me deparando com a lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos segundo Hollywood. Eu já amo a lista do IMDB, então fiquei curiosa por saber se havia alguma semelhança entre as listas. Ou curiosa com a lista em si.As listas estão, respectivamente, aquiaqui .

Para minha surpresa, as listas se coincidem em 3 filmes do top 5. Isso foi surpreendente porque a lista de IMDB é computada por votos do público: eu e você amantes de Cinema e amantes de listas. Já a lista de Hollywood foi feita segundo os votos de especialistas em Cinema: chefes de estúdios, diretores e celebridades em geral. E mesmo assim, 3 filmes coincidentes no topo da lista: Um Sonho de Liberdade, O Poderoso Chefão Parte I e Pulp Fiction. Se eu concordo dos 3 estarem no top 5? Claro que sim. Apesar de que meu top 5 seria um pouquinho diferente.

Outros filmes seguiram muito bem cotados: A lista de Schindler, Forrest Gump e Guerra nas Estrelas. Mas claro que as posições no ranking são bem diferentes.

Não vi os 100 filmes da lista que Hollywood publicou recentemente e, lógico, muito menos os 250 votados constantemente no IMDB. Devo ter visto 50, dentre eles, clássicos como Cidadão Kane, Casablanca e Doctor Zhivago, mas não vi os modernos Memento, Alien e Clube da Luta. Estranho, mas tudo bem.

Acho listar coisas algo muito peculiar. Eu tenho a minha lista dos top 5 filmes, claro. Dos top 5 episódios de Friends, dos top 5 livros e, claro, minha lista de compras do mercado. Tenho outras milhares de lista que não anoto, mas simplesmente guardo na mente. Listar tem algo a ver com carinho por certas coisas, ou parâmetros de identificação, ou, até mesmo, modos de organização mesmo. Se tenho top 5 amigos, é que esses são os melhores dentro do universo de muitos e para chegar a eles numa lista, eu tive que criar alguns parâmetros para defini-la.

Há a necessidade de parametrizar porque, senão, acontecem coisas do tipo “O bom, o mau e o feio” ficar fora da lista dos especialistas de Hollywood e ser o sexto na lista dos cinéfilos do IMDB. Mas, a verdade, é que listas não tem muita lógica porque os parâmetros são subjetivos demais: eu dou uma nota 10 para Harry e Sally e, no IMDB, o filme tirou nota 7.6.

Ok. Segue o meu top 5 de filmes: A Lista de Schindler, Melhor é Impossível, Laranja Mecânica, Um sonho de liberdade e Forrest Gump. Não nessa ordem ou nessa ordem mesmo.

A lista dos amigos eu guardo no coração.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pneumotórax

“Dia após dia preciso fazer escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam. E começo a perceber que à medida que o tempo ganhar ímpeto minhas escolhas vão se dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo exponencial até eu chegar a algum ponto de algum ramo qualquer dentre as suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase, atrofia e decadência até eu cair pela terceira vez, toda a luta em vão, afogado pelo tempo. É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias escolhas, parece inevitável – se desejo ser adulto de algum jeito, preciso fazer escolhas e lamentar as eliminações e tentar viver com isso.” David Foster Wallace, em Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer.pp.20, 21.

Ser adulto não é escolher. Ser adulto é ser o resultado consciente das escolhas que somos obrigados a tomar desde sempre. Enquanto somos crianças e não nos damos conta das consequências das escolhas, não ficamos presos às não-escolhas, imaginando o que poderia ter sido e que, por opção exclusivamente nossa, não foi.

A primeira vez que li esse trecho de David Foster Wallace, eu confesso que me assustei. Me assustei com a enorme verdade e com o fato de ele ter conseguido traduzir um sentimento que há muito tempo fica só no plano das minhas ideias e eu não consigo organizar de uma forma que possa ser ‘entendível’ aos outros.

Nunca tinha enxergado tão claramente o ângulo das eliminações. Mesmo que eu já pensasse todos os dias sobre as eliminações que faço, como ter eliminado ser arquiteta. A prisão, na viciada visão, sempre foram as escolhas. Mas, as renúncias a que Chorão se refere em “Lutar pelo que é meu”, talvez nos aprisionem ainda mais. 

É o pensar no que poderia ter sido e que não foi. 

Estou longe de ser capaz de solucionar essa condição. Sou prisioneira do que sou e não tenho escolha quanto a isso. Mas reflito sobre a ironia dessa condição, porque acho que nunca somos adultos o suficiente para nos acostumarmos a ela. 


"Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino." Pneumotórax, Manuel Bandeira.  


sexta-feira, 30 de maio de 2014

You have as many hours in a day as Beyoncé

Eu sempre digo que quanto mais coisa eu tenho para fazer, mais eu faço. Tenho sentido meus dias curtos porque tenho feito pouca coisa. Ou pouca coisa que eu ache realmente relevante.

Essa coisa de ter tempo e não saber usá-lo me preocupa. Tenho vários livros pendurados nas minhas estantes e baixados no meu tablet e não consigo terminá-los. São famosas as minhas tentativas de terminar um Dostoievski. Tudo bem. O Dostoievski não é um bom exemplo, porque eu simplesmente acho chato, mas serve para dizer que não consigo terminar livros relevantes que tenho tanta vontade de chegar ao fim.

Às vezes me desculpo dizendo que os compromissos corriqueiros do cotidiano me distraem do que eu realmente quero fazer. Mas não é isso. Parece preguiça de viver. Ou preguiça pura e simples mesmo.

É preguiça de organizar meu tempo. Eu sempre gostei de separar fotografias de viagens, salvá-las em álbuns na web e enviar aos amigos. Nem da viagem que fiz à Nova York em setembro passado eu consegui organizar as fotos. Acabei de chegar do Sudeste Asiático e, vejam, não separei ainda as fotos.

Pior é que não “acabei” de chegar do Sudeste Asiático. Já faz mais de um mês. Se eu fizer as contas, nesse mês eu já participei de intermináveis reuniões no trabalho, redigi pouca coisa e li um milhão de emails que não diziam quase nada. Fiz as coisas que tive que fazer. Mas nenhuma que realmente importasse para mim.

Em um mês, eu aposto que Paul McCartney compôs umas duas ou três músicas, Luiz Fernando Veríssimo escreveu umas quinze crônicas e Beyoncé fez uns 20 shows. Ensaiando todos os dias, é claro.

Eu acho que os dias de Beyoncé têm umas 45 horas. Só pode. Ou, então, o meu tem 12.

Acordo. Malho. Como (o tempo inteiro). Vou para o trabalho. Leio emails. Participo de reuniões. Às vezes escrevo alguma coisa. Tomo café. Volto pra casa. Ligo pro meu namorado. Durmo. De repente, acordo de novo. Sinto-me sufocada,mas nem tenho tanta coisa assim pra fazer.  

Ler? Que horas.

Ver um filme? Só se for no final de semana e olhe lá.

Escrever? Impossível. Quem tem tempo?

Acabo sentindo que vou levando a vida na obrigação do vácuo que a liberdade de gerir meu tempo me deu.

Queria tanto escrever. Não peças processuais chatas e repetitivas. Mas textos que tenham algum significado. Pelo menos para mim.


Acho que só assim me sentiria tomando conta do meu mundo.