quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pneumotórax

“Dia após dia preciso fazer escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam. E começo a perceber que à medida que o tempo ganhar ímpeto minhas escolhas vão se dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo exponencial até eu chegar a algum ponto de algum ramo qualquer dentre as suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase, atrofia e decadência até eu cair pela terceira vez, toda a luta em vão, afogado pelo tempo. É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias escolhas, parece inevitável – se desejo ser adulto de algum jeito, preciso fazer escolhas e lamentar as eliminações e tentar viver com isso.” David Foster Wallace, em Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer.pp.20, 21.

Ser adulto não é escolher. Ser adulto é ser o resultado consciente das escolhas que somos obrigados a tomar desde sempre. Enquanto somos crianças e não nos damos conta das consequências das escolhas, não ficamos presos às não-escolhas, imaginando o que poderia ter sido e que, por opção exclusivamente nossa, não foi.

A primeira vez que li esse trecho de David Foster Wallace, eu confesso que me assustei. Me assustei com a enorme verdade e com o fato de ele ter conseguido traduzir um sentimento que há muito tempo fica só no plano das minhas ideias e eu não consigo organizar de uma forma que possa ser ‘entendível’ aos outros.

Nunca tinha enxergado tão claramente o ângulo das eliminações. Mesmo que eu já pensasse todos os dias sobre as eliminações que faço, como ter eliminado ser arquiteta. A prisão, na viciada visão, sempre foram as escolhas. Mas, as renúncias a que Chorão se refere em “Lutar pelo que é meu”, talvez nos aprisionem ainda mais. 

É o pensar no que poderia ter sido e que não foi. 

Estou longe de ser capaz de solucionar essa condição. Sou prisioneira do que sou e não tenho escolha quanto a isso. Mas reflito sobre a ironia dessa condição, porque acho que nunca somos adultos o suficiente para nos acostumarmos a ela. 


"Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino." Pneumotórax, Manuel Bandeira.  


2 comentários:

  1. Como é bom reler novamente seus textos, Marisíssima...heheh..Sensacional esse da escolha. Já viajei tanto nisso, de que somos verdadeiramente resultado daquilo que escolhemos. O que somos, o que seremos, nós que escolhemos. O caminho se faz ao caminhar e escolher...hehe. Mas, vejo mais como uma liberdade do que como uma prisão, por mais que existam as eliminações e renúncias, afinal, a escolha é nossa!=D

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  2. Ah, lembrei até de o Velho e o Moço dos Los Hermanos, que fala exatamente disso...heheh

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